ENTREVISTA: QUANDO OS FILHOS VIRAM PAIS

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Esta semana conversamos com o Vitor Alexandre de Freitas Pascoal, que é Psicólogo, especializado em Análise Psicodramática pela Escola Paulista de Psicodrama. Atua na área há 16 anos, mas o mais importante: é filho de uma portadora de Parkinson e Alzheimer.

PAI E FILHO

UAUCertamente todos nós temos receio de envelhecer. Não somente pela diminuição das capacidades físicas como visão, audição e equilíbrio, como também pela perda da capacidade da autogestão da vida. Em outras palavras, a perda da independência total, e principalmente da autoridade. E cabe a nós, filhos, assumir gradativamente o papel de “pais de nossos pais”. Em que momento devemos estar atentos às mudanças que acontecem em nossos pais? Esse processo pode ser detectado precocemente?

Vitor – Primeiro quero agradecer a oportunidade de estar aqui com vocês, que vêm fazendo um trabalho de grande relevância. Com relação ao tema, é necessário lembrar que não temos controle algum sobre a vida. O envelhecimento é algo que costumamos temer muito, e com razão, mas temos que ter a certeza de que o cenário melhor é o de envelhecer. Se não envelhecemos, é porque morremos, não tivemos a oportunidade de envelhecer. Agora o interessante é que o fim da independência, da autogestão pode ocorrer de várias maneiras e não somente com o envelhecimento: um AVC (acidente vascular cerebral) ou um acidente que deixe a pessoa em uma cadeira de rodas ou até mesmo numa cama, pode ser bem pior do que a diminuição da independência pelo envelhecimento.

idoso feliz

Então, penso que o envelhecimento seja o melhor cenário, sem dúvida. Assim, respondendo a uma de suas questões, é possível detectar sim, bem precocemente, os sinais de muitas enfermidades importantes. Normalmente esses sinais se caracterizam por algo que parece até corriqueiro, mas que chama atenção por não ser tão comum.

GRUPO SAUDE

UAUEssa inversão de autoridade pode ser feita de modo tranquilo para os dois lados? Existe alguma forma de passar pelo processo de uma forma menos traumática?

Vitor – É difícil, pois não fomos criados para inverter esse papel, mas nada é impossível. No entanto, temos que considerar cada caso. Por exemplo: na paraplegia ou tetraplegia a pessoa fica dependente fisicamente, mas suas funções intelectuais normalmente estão preservadas. De um lado isso permite que a pessoa entenda melhor sua situação e até colabore, de outro é natural que se sinta frustrada, revoltada, fique tensa, perca seu equilíbrio emocional ou sua fé e complique um pouco mais a situação. Já nas doenças degenerativas, como Parkinson e Alzheimer, nem o paciente e nem nós entendemos muito bem o que está acontecendo, sobretudo porque no início você não entende os sintomas como doença e sim como “excentricidades” do idoso. Isso pode irritar e nos tornar menos tolerantes.

conversa com idoso

Quando você começa a ter consciência de que é algo sério e que exige sua atenção e cuidados sobrevém uma carga grande: primeiro porque estamos programados emocionalmente para sermos cuidados pelos nossos pais e não para cuidarmos deles. Depois porque já estamos muito atarefados com nossas próprias vidas e ter mais essas questões exige que mudemos nossos hábitos, horários, dediquemos mais tempo a quem nunca tínhamos tido a necessidade de dedicar. Por último, e acredito que seja mais difícil, é que no caso das enfermidades degenerativas você toma contato com o imponderável: a finitude… a finitude de quem você ama, de quem cuidou de você, protegeu e até mesmo a sua própria finitude. Isso é muito desorganizador da vida e emocionalmente assustador até mesmo para aqueles que dizem não temer a morte. Tudo isso torna muito difícil esse processo.

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UAUO que pode ajudar nesse processo difícil?

Vitor – Para o idoso, que ele seja tratado e entendido com carinho, que se preserve a sua dignidade. Que ao manipulá-lo, por exemplo, para fazer sua higiene íntima você o trate com respeito, carinho e consideração e não como um peso ou uma cruz. Essas situações são duplamente constrangedoras porque denunciam a dependência, a doença e também representam uma invasão na privacidade. Também é importante não isolar o idoso. Ele deve participar o máximo possível do convívio social, ter atividades como desenho, pintura, artesanato, música, fisioterapia, enfim, algo que possa estimular e incluir.

Passatempo para idosos

Para quem cuida: fundamental entender a doença e seus sintomas para evitar achar que o idoso está fazendo algo de propósito e saber o que esperar, entender o prognóstico. Se organizar de modo a preservar a sua própria qualidade de vida. Não é possível entrar num modo de pena, penitência e abrir mão de tudo só para cuidar dos pais. Isso não é positivo, nem produtivo e nem funciona ao longo do tempo. Aliás, um médico me disse que esse é o caminho mais curto para a gente morrer primeiro. Fazer terapia pode ajudar no processo e é de grande valia. Fundamental buscar ajuda e compartilhar os cuidados com profissionais e outros familiares quando possível. Se houver condições financeiras será necessário em algum momento considerar a possibilidade de colocar num residencial geriátrico que pode cuidar do idoso muito melhor do que nós, acredite.

UAUNa sua opinião, qual dos dois lados sofre mais com essa mudança? Os pais – que sempre tiveram a palavra final e a autoridade, ou os filhos – que sempre se sentiram protegidos pela orientação e controle, e agora precisam assumir toda a tomada de decisões?

Vitor – Infelizmente, ambos sofrem muito. As perdas para ambos são demasiadas.

UAUA presença de um cuidador de idosos muitas vezes não é aceita pelo idoso ou até mesmo pelo filho, que julga estar “repassando” uma responsabilidade que deveria ser deles. Por que isso acontece?  Como deve ser entendida a contratação de um profissional?

Vitor – Nem todos os idosos e nem todos os filhos rejeitam os cuidados de um terceiro. Mas quando isso acontece normalmente é porque se trata de alguém desconhecido que está assumindo um papel importante na relação: trata-se de um intruso. Além disso tememos que essa pessoa possa não cuidar direito, machucar ou abusar entre outras coisas. Esse receio é um verdadeiro terror e nem sempre é infundado. Com relação a achar que está “repassando” a responsabilidade, se isso passar pela sua cabeça, procure uma terapia urgente. Primeiro você tem que saber que seu pai ou sua mãe está doente e você não é médico, não é enfermeiro, não é auxiliar de enfermagem, fisioterapeuta e nem cuidador.

Cuidados com os idosos

E é desses profissionais que eles precisam para cuidar deles. Mesmo que você seja formado em alguma dessas profissões, isso é o seu trabalho profissional e ninguém pode ficar no papel de profissional 24 horas por dia. Além disso, cuidar de paciente é uma coisa e cuidar de pai ou mãe é outra. O que nós, filhos, precisamos, é providenciar o melhor cuidado possível por parte dos profissionais, sem abandonar, dando carinho atenção, estando por perto e orientando quem pode cuidar.

UAUO grande receio dos idosos – e também dos filhos – refere-se à moradia do idoso. Idosos não querem morar com os filhos e estes não querem (ou não podem) receber o idoso em suas casas. Ao mesmo tempo, colocar o idoso em uma casa de repouso muitas vezes é vista como abandono pelos dois lados. Até que ponto isso é fantasia ou realidade?

Vitor – Dependendo da casa onde se coloca e se você sumir de lá ou visitar 1 vez a cada 15 dias, é abandono sim. Esse é um dos maiores problemas que o Brasil enfrentará nos próximos anos e é fundamental que comecemos a lidar com a realidade imediatamente. Nossa população está envelhecendo e não estamos preparados nem culturalmente nem estruturalmente para lidar com essa questão. As famílias estão cada vez menores, sendo compostas pelo casal mais um ou dois filhos. Ao mesmo tempo estamos vivendo mais tempo, sem necessariamente a saúde que deveríamos ter.

amizades na terceira idade

É impossível que um filho ou dois deem conta de um pai ou mãe fisicamente dependentes. Entenda que não estou dizendo isso para preservar a vida dos filhos. Estou dizendo que um idoso tem múltiplas necessidades que não podem ser atendidas apenas pelos membros da família, mesmo que eles disponham de tempo e dinheiro. Um residencial geriátrico pode ser de grande ajuda para todos e sobretudo, para o idoso. O desafio é encontrar um que seja bom, atenda às necessidades, cuide bem e que possamos pagar.

UAUQue tipo de ajuda os filhos podem procurar para que o processo seja aceito e vivenciado de forma tranquila e bem equilibrada?

Vitor – Não acredito que esse processo possa ser vivido de forma tranquila e equilibrada. Estamos falando de perdas significativas. Será difícil sempre. Nessas situações estaremos sempre lidando com aquela ampulheta cuja areia se esvai lenta ou rapidamente, mas que não nos deixa dúvidas: vai acabar. 

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Fazer o melhor possível pelos pais, mas veja, estou falando de possível e não de sacrifícios impossíveis, ter ajuda de uma psicoterapia, fazer coisas para si mesmo, manter a qualidade de sua vida, ter ajuda de amigos e familiares são coisas fundamentais.

UAU Finalizando nossa entrevista, qual a “dica” que você daria para que a inevitável inversão e autoridade entre pais e filhos seja vivenciada de forma tranquila e amorosa para os dois?

Vitor – Na verdade não é fácil passar por esse processo de forma tranquila. No mínimo, você precisa tomar decisões que são muito difíceis. Não tem fórmula mágica. Mas é uma oportunidade linda e valiosa de amadurecer, refinar valores, aprender o que é verdadeiramente essencial e aprender a ser mais feliz na vida. Mesmo na doença nossos velhinhos ainda nos deixam um presente – difícil de receber – mas um presente!

VITOR PASCOAL

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Vitor Pascoal é psicólogo clínico, com especialização em análise psicodramática. Atualmente mora em Santa Catarina, onde atende em consultório. Contato: vitor pascoal7@gmail.com

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